Introdução

Faaaala pessoal, o post de hoje vai ser retirado da minha primeira iteração com as respostas do formulário que passei pedindo para as pessoas me perguntarem coisas sobre Trabalho Remoto, viagens e etc. Todos esses posts vão ficar separados na série chamada Trabalhar no exterior, remoto, viagens e etc..

Tiveram muiiitas perguntas que acho que dá para criar uns 50 posts só disso. Mas uma pergunta que teve bastante repetição e por isso resolvi falar especificamente sobre foi:

Como é trabalhar com pessoal de fora? O que preciso aprender para ficar no nível deles?

Como esse é um assunto bem interessante e pertinente, resolvi começar por ele. Relaxa que vai ser um post bem levinho e pequeno, sem nenhuma treta. São só algumas coisas que fui percebendo sobre meu tempo morando na Europa e trabalhando com gringos. Eu vou falar um pouquinho também sobre a europa em si, pois isso influi diretamente no comportamento do dev.

Enquanto vou escrevendo, vou ouvindo o primeiro album da banda Greta Van Fleet, que para mim é o Led Zeppelin da atualidade. Já tinha postado sobre eles antes e agora eles merecem destaque de novo, som de altíssima qualidade.

Resumo para os preguiçosos

Trabalhar com o pessoal de fora é praticamente a mesma coisa que trabalhar com outros brasileiros. O nível deles não é mais alto que o nosso, pelo contrário, julgo a dizer que, em boa parte, eles estão abaixo do nível dos devs brasileiros. O que diferencia muito o dev brasileiro para o gringo é o estilo de vida e vou explicar um pouco sobre isso se você quiser continuar lendo =)

Nível dos Devs Gringos

Bom, a primeira coisa que eu vou falar é nesse aspecto. Será realmente que o nível dos devs gringos é maior que os devs brasileiros? Eu pude participar de muiiitos meetups e pequenos eventos enquanto estive na Irlanda. Eu fui em Meetups como o NodeJS Dublin, JS Dublin, React Dublin, Google Developers e vários outros. E a primeira coisa que percebi é que muitas das coisas que o pessoal discutia e apresentava eram, em sua maioria, coisas antigas e ou muito básicas. Sim, isso mesmo que você leu, eu fui em Meetup que tinha “Introdução a AngularJS” e não era das versões novas não, era do primeirão mesmo…

Também ao conversar com o povo, pude perceber o como a galera ainda era receosa de atualizar as coisas e estudar coisas novas. Lembro de ter ido num Meetup da Zendesk (que tem um escritório lindo e enorme <3) e o cara estava falando de ES6 para o povo e quando ele perguntou quem já tinha ao menos testado algo, quase ninguém levantou a mão! Isso foi em Novembro do ano passado gente!

É claro que tem devs muito bons e técnicos, eu pude conhecer vários. Mas não vá pensando que todo dev gringo é um Dan Abramov da vida e que é melhor que você.

Estilo de Vida e como trabalham

É aqui onde as coisas mudam muito entre o brasileiro e o gringo. Novamente, isso se aplicando a minha realidade e ao que vi (isso pode variar em outras regiões). Dentro do trabalho eles são bastante sérios, diretos e focados.

É super normal você fazer um código e submeter para code review e os caras serem secos e falarem na lata que tá ruim, para fazer X ou Y. No Brasil eu acho que as vezes a gente tem aquela coisa de “tentar amenizar” a parada e falar “com jeitinho”. O europeu não vai ter disso não, se estiver errado/ruim, ele vai falar “seco”. Para quem não está acostumado com esse estilo, pode achar que os caras são grossos, arrogantes e outras coisas mais. Só que na realidade é só a forma deles falarem mesmo, sempre tentando ser o mais concisos possível. E no final, sendo muito sincero, isso é ótimo! Eu prefiro ter um feedback importante sobre o meu código para que eu possa evoluir, do que ficar sempre recebendo tapinha nas costas e não crescer.

E outra coisa extremamente importante é que o Europeu preza ainda mais sua vida fora do trabalho. Deu 17/18h o pessoal está saindo e é isso aí. O mundo está caindo, eles vão desligar o computador e ir embora. Não tem essa cultura de que “aquele que trabalha até mais tarde que tá mandando bem”, raramente você vai ouvir relatos de pessoas que ficaram até tarde nos escritórios.

Outra coisa é a pontualidade, brasileiro é famoso em tudo que é canto pelos atrasos. E bom, isso é verdade, acho que não teve uma empresa brasileira que eu tenha trabalhado que não tenha tido atrasos constantes (até eu me incluo na parte de se atrasar). Como os gringos querem entrar e sair corretamente do trabalho, eles também prezam as reuniões e os tempos determinados. Se a reunião é para começar as 15h, ela vai começar as 15h tendo todo mundo ou não. E se é para demorar 30min, ela vai durar isso. Se for notado que o papo vai estender, já olham a agenda e separam um outro momento para isso.

Situação Financeira, estudos e pressão

Isso é uma coisa interessante que estava até conversando com uns amigos hoje. Todos sabemos que a situação financeira acaba influindo no comportamento das pessoas e como elas vivem. Por mais que você diga “Dinheiro não é importante, o importante é trabalhar no que gosta.”, o mundo é capitalista e não funciona 100% assim.

Os europeus, em sua maioria, tem uma situação financeira melhor que nós brasileiros. E isso acaba lhes dando um pouco mais de comodidade, que pode vir a ser uma coisa boa ou ruim. Por terem essa facilidade, eles acabam querendo aproveitar mais da vida e muitos não estudam tanto ou evoluem fora do trabalho. Afinal de contas, eles já vivem bem e tem sua estabilidade.

Por outro lado, o brasileiro vive na incerteza, as vezes você não sabe se vai estar empregado até amanhã, além da taxa de desemprego e pessoas fora da área de trabalho ser muito grande. E por causa dessa pressão e necessidade de se mostrar eficiente e bom, o brasileiro estuda no trabalho, em casa, no feriado, final de semana, dia santo e as vezes tá dormindo e estudando. E sabe o que acontece?

Ele acaba virando um desenvolvedor quase sempre atualizado e com bons conhecimentos, mas ao mesmo tempo lhe bate a síndrome do vira lata, porque ele está estudando e com isso está vendo grandes desenvolvedores de fora e pensando que todos são como aqueles caras.

Tenta pensar naquele seu parceiro do trabalho que manda absurdamente bem, mas tá sempre achando que é ruim e que a galera de fora é muito melhor. Te garanto que você vai achar vários exemplos. Manda esse post para ele, vai que ele acorda um pouquinho =D

Eventos e Meetups

Uma coisa que na Irlanda eu e uns amigos brincávamos era como tinha Meetup. Você podia comer e beber de graça todos os dias a noite, afinal de contas tinha Meetup todo dia! Isso é uma coisa bem bacana lá de fora e que ajuda o povo a ter um networking legal e com isso muitos ganham mais visibilidade e evoluem mais rápido.

No Brasil temos alguns eventos muitos maneiros e em São Paulo tiveram já dois anos tendo a semana Frontend. Isso foi fantástico! Mas ainda é muito pouco se comparar com grandes polos daqui de fora. E não pode ser só em São Paulo, eu sou do Rio (na real da Serra do Rio) e eu ouvi vários amigos comentando como que tem estado morta a comunidade…

Eu sei como é difícil organizar essas coisas, tenho amigos que tão aí fazendo evento todo ano e eles contam como é pedreira. Então, se você não sabe como ajudar na área, já pensou em se oferecer para ajudar nos eventos? E lembre-se, o evento não é só no dia. Na realidade o antes e o depois são muiiiito mais trabalhosos e os caras tão sempre precisando de ajuda.

Estrutura, empresas, transporte…

Muito pela Europa ser mais evoluída, a estrutura das empresas acaba sendo muito melhor. E não, eu não estou falando sobre a empresa dar aquela cervejinha e lanchinho e salário baixo. Eu digo sobre o equipamento para trabalhar, mesas, cadeiras, prédios com boa acústica para não ficar um ruído horrendo o tempo todo. Além é claro, os salários são muito bons. Os salários de desenvolvedores são sempre bem acima do salário mínimo, o que já te permite viver de forma mais confortável. Quando você não precisa se desesperar se vai ter dinheiro para pagar o aluguel, você acaba tendo a cabeça mais limpa para poder trabalhar.

Outra coisa importantíssima da Europa é que o transporte aqui funciona maravilhosamente bem em quase todas as grandes cidades. Existem várias opções e com isso, o tempo de deslocamento para o trabalho passa a ser bem menor ou menos sofrido.

Pensa no brasileiro comum, a média de deslocamento que ele leva para o trabalho é coisa de 1h. Claro que tendo pessoas com menos tempo e pessoas que chegam a até 2h! Então, o que acontece é que essa pessoa já precisa acordar bem mais cedo, passa um tempão até chegar no trabalho, em geral, num metrô lotado ou num trânsito caótico. Isso é algo extremamente desgastante, porque a pessoa já chega no trabalho cansada, com isso ela produz menos. Aí para compensar, o que a pessoa faz? Isso, ela fica mais tempo no trabalho e sai mais tarde. Só que com isso, ela chega ainda mais tarde em casa e aí tem todas as coisas que precisa fazer da vida pessoal, quando vai ver, acabou o dia e a pessoa sequer descansou ou estudou um pouco. E no dia seguinte segue a mesma rotina.

Esse padrão de comportamento é repetido por muitos brasileiros, mas não ocorre com os europeus. Isso facilita com que o Europeu possa ter uma vida mais saudável e possa também estudar e trabalhar melhor.

Como o Br é visto no exterior?

Isso é uma parada bem legal. Sempre quando eu conversava com a galera e perguntavam de onde eu vinha e eu falava do Brasil, eu diria que em 90% dos casos eles faziam expressão de impressionados e falavam que conheciam muitos brasileiros ótimos. Já teve muito RH falando comigo se eu não conhecia brasileiros para vir para algum país do lado de cá. Isso é porque nós somos conhecidos como pessoas que trabalham muito e são muito esforçadas. Porque como eu disse acima, o europeu preza muito mais a vida pessoal e nós brasileiros estamos acostumados a “se matar” tanto que até mudar o mindset que não precisa de tudo isso, demora um pouco.

Conclusão

Como eu falei, o post não seria nenhuma treta nem nada. O que eu concluo a partir de tudo isso é que temos muitos brasileiros fantásticos e bem superiores aos gringos. Os europeus tem mais facilidades para evoluir, mas isso não significa necessariamente que todos aproveitam essas oportunidades. Nós brasileiros temos boa imagem na área de desenvolvimento no exterior e não é impossível trabalhar para uma empresa estrangeira, as vezes é até mais fácil.